Há um provérbio popular que diz: “Ensinar o Pai-Nosso ao Vigário”. Vivemos em tempos tão conturbados que este provérbio está se realizando “ipsis litteris”, isto é, nas mesmas letras. Pois uns dizem: “Senhor Vigário, o senhor está errado porque está rezando no Pai-Nosso: ‘Perdoai as nossas ofensas’, e não ‘dividas'”. Já outros dizem: “Senhor Vigário, o senhor está errado porque está rezando no Pai-Nosso: ‘perdoai as nossas dívidas’, e não ‘ofensas'”.
Todos sabemos que foi Jesus quem ensinou o Pai-Nosso. Por isso é a oração mais perfeita e mais bela que existe. É a Oração do Senhor ou “Oração Dominical”. “Dominus” em latim quer dizer “Senhor”. Quão importante e necessário é que rezemos o Pai-Nosso como Jesus ensinou! Devemos rezá-lo não só com grande devoção mas também como Jesus rezou, portanto, com toda a fidelidade. Facilitá-lo é a finalidade desta postagem.
Dois Evangelistas relatam a passagem em que se narra como Jesus ensinou o Pai-Nosso: São Mateus (6, 9-13) e São Lucas (11, 1-3). Pelos estudos da Exegese parece que Jesus só se utilizou do aramaico, língua falada na Palestina naquela época, aliás muito parecida com o hebraico, idioma original dos judeus. Usava-se também o grego (língua da Ciência e da Filosofia) e o latim, por ser a língua oficial do império romano, ao qual estava sujeita a Palestina na época.
Concluímos com toda probabilidade que Jesus ensinou o Pai-Nosso em aramaico. São Mateus também escreveu seu Evangelho em aramaico. Já São Lucas escreveu o terceiro Evangelho em grego. São Lucas é o único que não pertence a raça judaica: nasceu em Antioquia, era médico e escrevia em grego. Possuía, inclusive, grande conhecimento desta língua, e o seu Evangelho, literária e historicamente, é o mais perfeito.
Quanto ao Pai-Nosso, os relatos de São Mateus e de São Lucas não são iguais: Lucas é mais sucinto. Por isso a Santa Madre Igreja adotou o de São Mateus completado com alguma palavra do de São Lucas. De São Mateus a Igreja adotou o Amém, segundo a Vulgata de São Jerônimo. Agora vamos ao ponto nevrálgico: dívidas ou ofensas?
Além de São Lucas, também São Marcos e São João escreveram em grego. São Jerônimo traduziu os quadro Evangelhos para o latim. Em São Mateus traduz empregando a palavra debita que quer dizer: “dívidas”. De São Lucas traduziu peccata, que quer dizer: “pecados”. A palavra empregada no aramaico por São Mateus corresponde no grego à palavra ofeilémata, que em português quer dizer exatamente “dívidas”. São Lucas, porém, não empregou esta palavra, mas a substituiu pela palavra grega martías, que em português quer dizer exatamente “pecado”. São Lucas assim o fez (e como já dissemos ele tinha um conhecimento profundo do grego) porque “pecado” era mais claro para os leitores gregos, enquanto que a palavra ofeilémata (dívidas), sugeria-lhes a ideia de obrigação financeira.
Por sua vez, São Mateus empregou a palavra aramaica que significava dívidas porque no aramaico a noção de pecado exprimia-se correntemente pela palavra “dívida”. E a demonstração mais clara disto é o exemplo do próprio Cristo Jesus, que usou a parábola dos Servos Devedores, para mostrar que, se nós não perdoarmos as ofensas que nossos próximos nos fazem, também Ele não perdoa os nossos pecados. – Logo depois de ensinar o Pai-Nosso, Jesus disse: “Porque, se vós perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará os vossos pecados. Mas, se não perdoardes aos homens, tão pouco vosso Pai vos perdoará os vossos pecados“. (S. Mateus, 11, 14-15).
Vemos assim que já nas origens, partindo das próprias palavras do Cristo, haviam as duas palavras. Isto explica o porquê das diferenças, – aliás mais superficiais do que reais, – nos diversos idiomas do mundo, ao se rezar o Pai-Nosso. Fiz uma pesquisa e pude constatar o seguinte: Em Portugal já se rezava “ofensas” (o Pai-Nosso num livro de 1940 e no ‘Pequeno Manual do Catequista’ do célebre teólogo Perardi, editado em 1955 em LISBOA, na gáfica União, traz o Pai-Nosso em latim ao lado da tradução em Português, e lá está: ‘Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’); na França se rezava “offences”, isto é, “ofensas” (Pai-Nosso num livro de 1914); na Itália se rezava “debiti”, isto é, “dívidas” ( Pai-Nosso num livro de 1960); na Espanha se rezava “deudas”, isto é, “dívidas” ( Pai-Nosso num livro de 1928).
No Brasil se rezava “dívidas”, e não “ofensas”. Depois do Concílio Vaticano II, os bispos do Brasil decidiram passar a rezar “ofensas”, como em Portugal.
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