terça-feira, 18 de julho de 2023

Categorias morfológicas do português

 Não é fácil definir categorias morfológicas, dada a heterogeneidade do conjunto tradicionalmente levantado pelos linguistas. O melhor em se tratando dessas categorias é fazer uma definição extensiva. Em português, nos interessam as categorias tratadas por soluções baseadas em flexão.

Assim sendo, vamos considerar as categorias de número, gênero, pessoa, caso, tempo, modo e aspecto. Poderíamos agregar à lista a categoria de definição, ligada ao uso dos artigos, mas em português esta categoria é um caso limítrofe que precisa de abordagem separada.
Morfologia

Em outros idiomas, temos mais categorias como locativa, voz e categorias de caso mais ricas que a existente em português.

De forma simplificada, consideramos categoria morfológica a solução baseada em flexão, usada na língua para agregar traços específicos ao significado da palavra. Esses traços se distribuem de forma complementar, ou seja, quando um está presente, fica implícita a ausência do outro e todas as ocorrências possuem um dos traços possíveis.
Número

Nosso sistema de flexão em número comporta singular e plural. Línguas como o grego apresentam singular, dual e plural. A categoria número tem função semântica, pois indica singularidade ou pluralidade do significado do termo flexionado. Também apresenta função sintática, pois as frases em português seguem regras de concordância em que alguns termos da frase devem concordar entre si em número.
Gênero

Em português, há dois gêneros: feminino e masculino. Não temos o neutro, presente em idiomas como inglês e alemão. Alguns resquícios do neutro são os pronomes tudo, nada, isto, isso e aquilo. Em alguns casos, a função da categoria gênero é semântica, como nos pares a seguir:

    O menino/a menina, o gato/a gata

Nos exemplos dados, a categoria gênero define um traço semântico, ou seja, estabelece o sexo do ser representado pelo substantivo.

Em português, muitos substantivos a que não pode associar característica de sexo, têm gênero implícito. É o que se vê na série a seguir:

    O garfo, a colher, a faça, o prato.

É impossível atribuir a característica semântica de sexo aos substantivos do exemplo, mas em português mesmo substantivos assexuados estão associados convencionalmente a um gênero para garantir o funcionamento das regras de concordância sintática.
Grau

Em português, há dois sistemas de flexão de grau: o diminutivo–normal–aumentativo, típico dos substantivos e adjetivos e o sistema normal–superlativo, usado com adjetivos.

Não temos flexão de grau comparativo como ocorre, por exemplo, no inglês.

    John is tall. (João é alto)
    John is taller than Paul. (João é mais alto que Paulo.)
    John is the tallest. (João é o mais alto.)

O comparativo não é indicado por flexões, mas por advérbios. São exceções os adjetivos: bom - melhor, mau - pior, ruim - pior, grande - maior, pequeno - menor, alto - superior, baixo - inferior, jovem - júnior, velho - sênior, interno - interior, externo - exterior.

Caso

O caso está presente em nossa língua nas flexões dos pronomes pessoais. Observe o exemplo:

    Eu pedi o livro a ele.
    Ele entregou o livro a mim.

Nas duas frases, o mesmo ente é representado ora por eu, ora por mim. Eu e mim têm funções semelhantes mas são usados em contextos diferentes. Eu é empregado quando o pronome está em posição de sujeito (ou predicativo) da frase e mim, quando em função de complemento (ou adjunto). Quando um lexema é flexionado segundo a função sintática que desempenha na frase, temos flexão de caso.

Em português, os pronomes pessoais apresentam duas flexões de caso: oblíquo e reto.

A flexão de caso dos nossos pronomes pessoais é um resíduo do latim que permaneceu em nossa gramática. Em latim, o uso das flexões de caso é bem mais intensivo, tanto que os substantivos em latim clássico apresentavam seis flexões de caso: nominativo - sujeito ou predicativo do sujeito / genitivo - adjunto adnominal (indicando posse) / dativo - objeto indireto / acusativo - objeto direto / ablativo - adjunto adverbial ou agente da passiva / vocativo - como no português 
Pessoa

A categoria de pessoa é usada para discriminar as pessoas do discurso. Elas são três no português: primeira (quem fala), segunda (a quem se fala) e terceira (de quem se fala).

1ª - locutor / 2ª - locutário / 3ª - assunto
Tempo

Esta categoria morfológica também é típica dos verbos. Em nosso sistema verbal temos basicamente três tempos: futuro, pretérito e presente.
Modo

A categoria de modo está presente no sistema verbal do português. O verbo pode ser flexionado em três modos diferentes: imperativo, indicativo e subjuntivo. Simplificadamente, o modo indicativo é empregado para expressar ações certas, o subjuntivo para expressar ações incertas, duvidosas ou eventuais e o imperativo é usado para indicar ordem, proibição, pedido, conselho, súplica, convite ou recomendação.
Aspecto

Não existe só uma categoria de aspecto em português, mas três, que agrupamos em uma só por se manifestarem em apenas algumas flexões do sistema verbal.

Afirmação: O aspecto de afirmação está presente nas flexões verbais do modo imperativo. Este tempo verbal pode ter aspecto afirmativo, quando se incita positivamente à ação ou negativo, quando se incita a não realizar a ação.

Consumação: O aspecto de consumação ocorre nas flexões verbais do futuro do modo indicativo. Este aspecto pode ser confirmado, caso a ação seja considerada como certa no futuro ou então, cancelado, quando a ação é dada como não sujeita a consumação futura.

Duração: O aspecto de duração está presente nos tempos verbais do modo indicativo passado. Temos o aspecto pontual que indica ações consumadas em um momento específico. O aspecto durativo indica ações que se estendem para além de uma determinada marca temporal no passado. O aspecto imperfeito indica ações continuadas no passado. Por fim, o aspecto anterior indica ação consumada num passado anterior a uma marca temporal do passado.

Alguns gramáticos propõem variações de aspecto: perfectivo - ação concluída, imperfectivo - ação não concluída, incoativo - início da ação, durativo - ação em seu desenvolvimento, conclusivo - término da ação, pontual - ação momentânea, contínuo - ação frequente, indeterminado - verdade absoluta tomada como tal, conclusivo - término da ação.
Outras categorias morfológicas

Existem mais categorias morfológicas em outros idiomas. Em português, não temos flexão de voz, como ocorre, por exemplo, no latim clássico. Em nossa língua, a distinção de voz - ativa, passiva, reflexiva e recíproca - é feita com estruturas sintáticas. No entanto, as gramáticas incluem como flexão por questão didática.

O artigo: morfema flexivo de definição: A Gramática Tradicional e as convenções de escrita estabelecem que artigo é palavra, o que contraria a definição de palavra como forma livre mínima. Mas se admitirmos que artigo é morfema flexivo, então, temos mais uma categoria de flexão no português: a definição.

A categoria flexiva definição supre a necessidade semântica de distinguir entre dualidades como: particular/genérico, próprio/comum, definido/indefinido. Os artigos do português apresentam flexão definida e indefinida.

Finitude: A Gramática Tradicional considera a categoria de finitude,  específica dos verbos. Há duas opções de finitude: finita e infinita. A flexão do verbo é finita quando porta informação de tempo e modo e infinita quando indeterminada em tempo e modo.

    São finitas flexões como: fizemos, fazíamos e faremos.
    São infinitas: fazer, fazendo e feito.

A rigor, a categoria de finitude pode ser tratada como a categoria das flexões indefinidas em tempo e modo, e as infinitas como as formas nominais do verbo.

Os artigos são pronomes em função adjetiva.

Os numerais fazem parte da classe dos nomes, podem ser substantivos ou adjetivos. 

Os conectivos ligam palavras (preposição) ou orações (conjunção). Podem ligar também termos de mesma função sintática.

As interjeições não são palavras, mas sim frases de situação.

As palavras denotativas não fazem parte de nenhuma das 10 classes. São uma classe independente.

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