quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Utopia - Final - Tempo Comum (Pe. Reginaldo Manzotti)

 Das muitas coisas

Do meu tempo de criança

Guardo vivo na lembrança

O aconchego de meu lar

No fim da tarde

Quando tudo se aquietava

A família se ajeitava

Lá no alpendre a conversar


Meus pais não tinham

Nem escola, nem dinheiro

Todo dia, o ano inteiro

Trabalhavam sem parar

Faltava tudo

Mas a gente nem ligava

O importante não faltava

Seu sorriso, seu olhar


Eu tantas vezes

Vi meu pai chegar cansado

Mas aquilo era sagrado

Um por um ele afagava

E perguntava

Quem fizera estripulia

E mamãe nos defendia

Tudo aos poucos se ajeitava


O sol se punha

A viola alguém trazia

Todo mundo então pedia

Pro papai cantar com a gente

Desafinado

Meio rouco e voz cansada

Ele cantava mil toadas

Seu olhar ao sol poente


Passou o tempo

Hoje eu vejo a maravilha

De se ter uma família

Quando tantos não a tem

Agora falam

Do desquite e do divórcio

O amor virou consórcio

Compromisso de ninguém


E há tantos filhos

Que bem mais do que um palácio

Gostariam de um abraço

E do carinho entre seus pais

Se os pais amassem

O divórcio não viria

Chamam a isso de utopia

Eu a isso chamo paz

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