quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Júlio Battisti - Estrutura e Formação das Palavras

 INTRODUÇÃO

Neste tutorial iremos verificar a estrutura e a formação das palavras.


Primeiramente será estudada a estrutura da palavra, ou seja, como ela é formada. Em seguida o processo de formação das palavras.


ESTRUTURA DAS PALAVRAS

A palavra é subdivida em partes menores, chamadas de morfemas.


Exemplo: gatinho – gat + inho


Infelizmente – in + feliz + mente


Os morfemas são:


Radical;


Vogal temática;


Tema;


Desinência;


Afixo;


Vogais e consoantes de ligação.


RADICAL

O significado básico da palavra está contido nesse elemento; a ele são acrescentados outros elementos. Também é conhecido como lexema ou semantema.


Exemplo: pedra, pedreiro, pedrinha.


VOGAL TEMÁTICA

Tem como função preparar o radical para ser acrescido pelas desinências. Pode ser nominal (vogal átona A, E e O em fim de substantivos e adjetivos) ou verbal (indica a que conjugação pertence o verbo (1ª, 2ª ou 3ª). O verbo pôr e seus derivados pertence à 2ª conjugação, pois sua forma antiga era poer.


Exemplo: escola, livro, controle; cantar, vender, partir, propor.


OBSERVAÇÃO:


Nem todas as formas verbais possuem a vogal temática. Por exemplo, na 1ª pessoa do singular do presente do indicativo e em todo o presente do subjuntivo, a desinência se junta ao radical.

Da mesma forma, nem todos os nomes possuem vogal temática, como os nomes terminados em vogal tônica ou em consoante, chamados de atemáticos.


Exemplo: parto (radical + desinência)


TEMA

É o radical com a presença da vogal temática. Nos nomes, a presença é mais evidente naqueles derivados de verbos.


Exemplo: choro, canta.


DESINÊNCIAS

São elementos que indicam as flexões que os nomes e os verbos podem apresentar. São subdivididas em:


DESINÊNCIAS NOMINAIS;


DESINÊNCIAS VERBAIS.


DESINÊNCIAS NOMINAIS – indicam o gênero e número. As desinências de gênero são a e o; as desinências de número são o s para o plural e o singular não tem desinência própria.


Exemplo: gat o


         Radical desinência nominal de gênero


      Gat o s


Radical d.n.g d.n.n


d.n.g » desinência nominal de gênero


d.n.n » desinência nominal de número

Não confunda vogal temática nominal com desinência nominal de gênero.

usuário - o: desinência nominal de gênero: admite flexão para o feminino - usuária

supermercado - o: vogal temática nominal: não admite flexão masculino x feminino


DESINÊNCIAS VERBAIS – indicam o modo, número, pessoa e tempo dos verbos.


Exemplo: cant á va mos


      Radical  v.t  d.m.t  d.n.p


v.t » vogal temática


d.m.t » desinência modo-temporal


d.n.p » desinência número-pessoal


AFIXOS

São elementos que se juntam aos radicais para formação de novas palavras. Os afixos podem ser:


PREFIXOS – quando colocado antes do radical;


SUFIXOS – quando colocado depois do radical


Exemplo:


Pedrada.


Inviável.


Infelizmente


As flexões são obrigatórias para se estabelecer a concordância.

O uso de afixos não se deve a uma obrigatoriedade, mas sim a uma opção.


VOGAIS E CONSOANTES DE LIGAÇÃO

São elementos que são inseridos por motivos de eufonia, ou seja, para facilitar a pronúncia de certas palavras. Não são morfemas.


Exemplo: habilidade, paulada, cafeicultura, sonolento.


PROCESSO DE FORMAÇÃO DAS PALAVRAS

Inicialmente observemos alguns conceitos sobre palavras primitivas e derivadas e palavras simples e compostas:


PALAVRAS PRIMITIVAS – palavras que não são formadas a partir de outras.


Exemplo: pedra, casa, paz, etc.


PALAVRAS DERIVADAS – palavras que são formadas a partir de outras já existentes.


Exemplo: pedrada (derivada de pedra), ferreiro (derivada de ferro).


PALAVRAS SIMPLES – são aquelas que possuem apenas um radical.


Exemplo: cidade, casa, pedra.


PALAVRAS COMPOSTAS - são palavras que apresentam dois ou mais radicais.


Exemplo: pé-de-moleque, pernilongo, guarda-chuva.


Na língua portuguesa existem dois processos de formação de novas palavras: derivação e composição.


DERIVAÇÃO

É o processo pelo qual palavras novas (derivadas) são formadas a partir de outras que já existem (primitivas). Podem ocorrer das seguintes maneiras:


Prefixal;


Sufixal;


Parassintética;


Regressiva;


Imprópria.


PREFIXAL – processo de derivação pelo qual é acrescido um prefixo a um radical.


Exemplo: desfazer, inútil.


Vejamos alguns prefixos latinos e gregos mais utilizados:


PREFIXO LATINO PREFIXO GREGO SIGNIFICADO EXEMPLOS

PREF. LATINO PREF. GREGO

Ab-, abs- Apo- Afastamento Abs ter Apo geu

Ambi- Anfi- Duplicidade Ambí guo Anfí bio

Bi- di- Dois Bí pede Dí grafo

Ex- Ex- Para fora Ex ternar Êx odo

Supra Epi- Acima de Supra citar Epi táfio

SUFIXAL – processo de derivação pelo qual é acrescido um sufixo a um radical.


Exemplo: carrinho, livraria.


Vejamos alguns sufixos latinos e alguns gregos:


SUFIXO LATINO EXEMPLO SUFIXO GREGO EXEMPLO

-ada Paulada -ia Geologia

-eria Selvageria -ismo Catolicismo

-ável Amável -ose Micose

PARASSINTÉTICA – processo de derivação pelo qual é acrescido um prefixo e sufixo simultaneamente ao radical.


Exemplo: anoitecer, pernoitar.


OBSERVAÇÃO :


Existem palavras que apresentam prefixo e sufixo, mas não são formadas por parassíntese. Para que ocorra a parassíntese é necessários que o prefixo e o sufixo juntem-se ao radical ao mesmo tempo. Para verificar tal derivação basta retirar o prefixo ou o sufixo da palavra. Se a palavra deixar de ter sentido, então ela foi formada por derivação parassintética. Caso a palavra continue a ter sentido, mesmo com a retirada do prefixo ou do sufixo, ela terá sido formada por derivação prefixal e sufixal.

Em desigualdade não ocorreu parassíntese, uma vez que desigual e igualdade são formas existentes na língua. Já em entardecer ocorreu parassíntese, uma vez que *entarde e *tardecer são formas inexistentes na língua.


REGRESSIVA - processo de derivação em que são formados substantivos abstratos a partir de verbos na forma infinitiva.


Exemplo: Ninguém justificou o atraso. (do verbo atrasar)


O debate foi longo. (do verbo debater)

Para saber se a palavra é primitiva ou derivada, usa-se o seguinte critério: Se o substantivo nomear ação, será palavra derivada. Se nomear objeto ou substância, será palavra primitiva.

Exemplo: trocar > troco / troca (regressiva); arquivo / arquivar (sufixal)

Embora essa seja a forma mais produtiva, também se verifica a formação de substantivos a partir de substantivos.

Exemplos: boteco (de botequim), portuga (de português), barraco (de barracão), comuna (de comunista), mina (de menina), asco (de asqueroso).

E também: amasso (de amassar), agito (de agitar), aperto (de apertar), sufoco (de sufocar), transa (de transar).


IMPRÓPRIA - processo de derivação que consiste na mudança de classe gramatical da palavra sem que sua forma se altere. Também é chamada de conversão.


Exemplo: O jantar estava ótimo.

Esse processo não interessa à morfologia, mas sim à semântica e à estilística, uma vez que há uma alteração no sentido da palavra, por isso essa derivação é considerada 'imprópria'.


COMPOSIÇÃO

É o processo pelo qual a palavra é formada pela junção de dois ou mais radicais. A composição pode ocorrer de duas formas:


JUSTAPOSIÇÃO e AGLUTINAÇÃO.


JUSTAPOSIÇÃO – quando não há alteração nas palavras e continua a serem faladas (escritas) da mesma forma como eram antes da composição.


Exemplo: girassol (gira + sol), pé-de-moleque (pé + de + moleque)


AGLUTINAÇÃO – quando há alteração em pelo menos uma das palavras seja na grafia ou na pronúncia.


Exemplo: planalto (plano + alto), outrora (outra + hora).


A palavra cadáver não é composta por aglutinação, é primitiva. Ela vem do latim cadere, que deu origem ao substantivo queda e ao adjetivo cadente. Existe uma explicação fantasiosa, que diz que a palavra veio da expressão latina 'caro data vermibus' - carne dada aos vermes.


Além da derivação e da composição existem outros tipos de formação de palavras que são hibridismo, abreviação e onomatopeia.


ABREVIAÇÃO OU REDUÇÃO

É a forma reduzida apresentada por algumas palavras, não devendo ser confundida com abreviatura, sigla ou símbolo:


Exemplo: quilo (quilograma), moto (motocicleta), pneu (pneumático), foto (fotografia), cinema (cinematográfico), expo (exposição).


HIBRIDISMO

É a formação de palavras a partir da junção de elementos de idiomas diferentes.


Exemplo: automóvel (auto – grego + móvel – latim), burocracia (buro – francês + cracia – grego), sociologia (socio - latim + logia - grego), televisão (tele - grego + visão - latim), sambódromo (samba - africano + dromo - grego), telepizza (tele + grego + visão - italiano)


ONOMATOPEIA

Consiste na criação de palavras através da tentativa de imitar vozes ou sons da natureza, dos animais, do homem e dos objetos.


Exemplo: fonfom, cocoricó, tique-taque, boom!.


PROCESSOS DE RENOVAÇÃO DA LÍNGUA


PALAVRA-VALISE

Consiste na criação de uma palavra a partir da junção de duas palavras. 

Exemplo: portunhol (português + espanhol), showmício (show + comício), aborrecente (aborrecer + adolescente), brasiguaio (brasileiro + paraguaio), Grenal (Grêmio + Internacional)


NEOLOGISMO

Consiste na criação de uma palavra ou expressão ou na mudança de sentido de uma palavra já existente.

Exemplo: mensalão, panelaço, lulista, bolsonarista; legal - coisa ou pessoa boa, desinfetar - ir embora, arroz - pessoa que não perde festa ou evento.

Pode ser lexical - quando uma nova palavra é criada, com um novo conceito ou semântico - quando a palavra já existe, mas ganha um novo sentido.


ESTRANGEIRISMO

Introduz palavras de outros idiomas na língua portuguesa.

Exemplos: pizza, show room, test drive, Halloween / beef - bife, stress - estresse, abat-jour - abajur.


DECALQUE

Consiste na tradução de uma palavra ou expressão estrangeira.

Exemplos: cartão postal - post card, palavras cruzadas - crossword, terceiro mundo - third world, lente de contato - contact lens.


INTENSIFICAÇÃO

Consiste no alargamento do sufixo de uma palavra já existente.

Exemplos: culpar - culpabilizar, iniciar - inicializar, digitar - digitalizar.

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