ALGUMAS REGRAS PRÁTICAS DE ORTOGRAFIA
Sugere-se que ortografia é disciplina para se aprender com os olhos. É preciso ler com atenção a forma como as palavras são escritas e gravar o máximo possível. Senão, para se compor um texto simples, o produtor dele terá de ficar recorrendo constantemente a dicionários ou ao VOLP ─ Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, para saber como se escreve essa ou aquela palavra.
À guisa de comentário apenas, deve-se esclarecer que numa língua não há predomínio de regras e sim de normas. Em português, há apenas dois conjuntos de regras: as de acentuação gráfica e as de ortografia. E para as duas não há uma exceção sequer. De forma que, em nossa língua, não há quase regras nem, muito menos, exceção a regras. As únicas exceções que temos na língua referem-se a normas. Regra é de uso obrigatório. Norma é sugestão do uso ideal.
Dito isso, vamos ver algumas regras práticas, com ênfase nas de correlação ortográfica, para as quais também não há exceção.
1) Correlação T ─ Ç, ou seja, se numa palavra houver a letra T, na palavra irmã, cognata, isto é, em palavras de mesmo radical, na mesma posição silábica haverá a letra Ç. Um exemplo muito conhecido dessa regra são as palavras 'intenção' e 'conjunção', que derivam de 'intento' e 'conjunto', as palavras 'redação', 'instrução' e 'eleição', que derivam de 'redator', 'instrutor' e 'eleitor', e as palavras 'relação' e 'ação', que derivam de 'relativo' e 'ativo', além das palavras 'preparação', 'combinação', 'obrigação' e 'abreviação', que derivam de 'preparar', 'combinar', 'obrigar' e 'abreviar':
T >>>>>>>>>>>>>>>>>>>> Ç
exceTo>>>>>>>>>>>>>>>>exceÇão
distinTo >>>>>>>>>>>>>>> distinÇão
extinTo >>>>>>>>>>>>>>> extinÇão
detenTo >>>>>>>>>>>>>>> detenÇão
proteTor >>>>>>>>>>>>>>> proteÇão
2) Correlação ND ─ S (ou NS), ou seja, se numa palavra houver as letras ND, na palavra irmã, cognata, isto é, em palavras de mesmo radical, na mesma posição silábica, haverá as letras NS:
ND >>>>>>>>>>>>>>>>>> NS
disteNDer >>>>>>>>>>>>> > disteNSão
preteNDer >>>>>>>>>>>>>> preteNSão
compreeNDer >>>>>>>>>>>>compreeNSão
asceNDer >>>>>>>>>>>>> asceNSão
esteNDer >>>>>>>>>>>>>> exteNSão
suspeNDer >>>>>>>>>>>> suspeNSão
repreeNDer >>>>>>>>>>>> repreeNSão
apreeNDer >>>>>>>>>>>> apreeNSão
ofeNDer >>>>>>>>>>>> ofeNSa
defeNDer >>>>>>>>>>>> defeNSa ou defesa
confuNDir >>>>>>>>>>>> confusão
expaNDir >>>>>>>>>>>> expaNSão
fuNDir >>>>>>>>>>>> fusão
Antes da regra seguinte e também esclarecendo que toda correlação ortográfica só ocorre com palavras cognatas, ou seja, palavras nascidas e formadas com o mesmo radical, destaco aqui uma pergunta pertinente de um aluno: “Mas, professor, a palavra ‘ateNDer’ também tem ND e ‘atenÇão’ é com Ç. Não seria uma exceção à regra?”. Não ─ respondi ─, não é uma exceção. A palavra ‘atenção’ é derivada de ATER, e não de ATENDER. O ato de atender é ATENDIMENTO.
Usa-se a mesma regra para as correlações PEL e PULS, RT e RS, RG e RS, CORR e CURS: imPELir > imPULSão / rePELir > rePULSão / exPELir > exPULSão / comPELir > comPULSório; veRTer > veRSão; inveRTer > inveRSão; reveRTer > reveRSão; conveRTer > conveRSão; perveRTer > perveRSão; subveRTer > subveRSão; diveRTir > diveRSão; aspeRGir > aspeRSão; imeRGir > imeRSão; emeRGir > emeRSão; submeRGir > submeRSão; CORRer > CURSo; conCORRer > conCURSo; disCORRer > disCURSo; reCORRer > reCURSo; perCORRer > perCURSo; transCORRer > transCURSo
3) Correlação TER ─ TENÇÃO, ou seja, se uma palavra for derivada de outra terminada em TER, ela se desenvolverá com TENÇÃO, que indica ação de:
TER >>>>>>>>>>>>>>>>> TENÇÃO
deTER >>>>>>>>>>>>>>>> deTENÇÃO
aTER >>>>>>>>>>>>>>>> aTENÇÃO
manTER >>>>>>>>>>>>> manuTENÇÃO
conTER >>>>>>>>>>>>> conTENÇÃO
reTER >>>>>>>>>>>>>>> reTENÇÃO
obTER >>>>>>>>>>>> obTENÇÃO
absTER >>>>>>>>>>>> absTENÇÃO
Mesma regra para os verbos terminados em TORCER: conTORCER > conTORÇÃO; disTORCER > disTORÇÃO
4) Correlação PRIM ─ PRESS, ou seja, se uma das cognatas tiver PRIM, a outra, na mesma posição, terá PRESS:
VVV PRIM >>>>>>>>>>>>>>>> PRESS
imPRIMir >>>>>>>>>>>>> imPRESSão, impreSSora
dePRIMir >>>>>>>>>>>>>dePRESSão
rePRIMir >>>>>>>>>>>>> rePRESSão
comPRIMir >>>>>>>>>>>>comPRESSão
exPRIMir >>>>>>>>>>>>exPRESSão
oPRIMir >>>>>>>>>>>>oPRESSão
suPRIMir >>>>>>>>>>>>suPRESSão
5) Correlação MET ─ SS, ou seja, se uma das cognatas tiver MET, a outra, na mesma posição, terá SS:
MET >>>>>>>>>>>>>>>>>>> SS
proMETer >>>>>>>>>>>>>> promeSSa, promiSSória
introMETer >>>>>>>>>>>>> intromiSSão
comproMETer >>>>>>>>>>>>compromiSSo
reMETer >>>>>>>>>>>>>>>>remeSSa, remeSSivo
subMETer >>>>>>>>>>>>submiSSão
6) Correlação GRED ─ GRESS, ou seja, se uma das cognatas tiver GRED, a outra, na mesma posição, terá GRESS:
GRED >>>>>>>>>>>>>>> GRESS
aGREDir >>>>>>>>>>>>>> aGRESSão
reGREDir >>>>>>>>>>>>> reGRESSão, reGRESSo
transGREDir >>>>>>>>>>>>transGRESSão
proGREDir >>>>>>>>>>>>>proGRESSo, proGRESSão
7) Correlação CED ─ CESS, ou seja, se uma das cognatas tiver CED, a outra, na mesma posição, terá CESS:
CED >>>>>>>>>>>>>>>>>>> CESS
conCEDer >>>>>>>>>>>>>>> conCESSão, conCESSionária
proCEDer >>>>>>>>>>>>>>>> proCESSO
interCEDer >>>>>>>>>>>>>> interCESSão
CEDer >>>>>>>>>>>>>>>>>>> CESSão
aCEDer >>>>>>>>>>>> aceSSO
retroCEDer >>>>>>>>>>>> retroCESSO
suCEDer >>>>>>>>>>>> suCESSão
anteCEDer >>>>>>>>>>>> anteCESSor
exCEDer >>>>>>>>>>>> exCESSO
Acho que com essas regrinhas de correlação já é possível ter uma visão de como as palavras vão se compondo na língua, desde a sua origem. Ainda há outras correlações interessantes, como C > Z, ou o contrário, como nas palavras ‘acido’ > ‘azedo’; ‘lícito’ > ‘lazer’; ‘feliz’ >‘felicidade’; ‘veloz’ > ‘velocidade’. Há também C > G, ou o contrário, no uso dos superlativos: ‘macérrimo’(hoje também já se aceita a forma ‘magérrimo’) < magro; ‘sacratíssimo’ < ‘sagrado’, ‘sacro’, etc. Fiquemos com essas.
VERBOS EM ‘IZAR’ E ‘ISAR’
No entanto, e apenas como fecho deste artigo, falemos mais uma regrinha que julgo importante: é a dos verbos terminados em ‘IZAR’ e ‘ISAR’. Como facilmente se percebe, essas duas terminações convivem harmoniosamente na língua e vamos ver quando é uma, quando é outra.
São sempre verbos derivados, pois o sufixo ‘IZAR’ é formador de verbos em nossa língua. É preciso apenas verificar se o radical da palavra primitiva termina ou não em S. Se terminar em S, o sufixo ‘IZAR’ será reduzido ao sufixo ‘AR’. Se não terminar em S, o verbo será formado com a totalidade do sufixo ‘IZAR’. Pode-se conceituar radical como o elemento que traz a parte significativa da palavra e a partir do qual podemos formar novas palavras. Basicamente, se a palavra termina em vogal átona, basta subtrair essa vogal e já temos o radical. Vejamos alguns verbos formados a partir da subtração da vogal átona final da palavra primitiva:
Suave – e = suav + izar – ou seja, como o radical não terminou em S, forma-se o verbo com o sufixo ‘IZAR’ na sua íntegra. O mesmo ocorre com:
humano – o = human + izar = humanizar
ameno – o = amen + izar = amenizar
Todavia, se o radical terminar em S, basta acrescentar ‘AR’, pois, se acrescentássemos ‘IZAR’, o som ficaria insuportável:
pesquisa – a = pesquis + ar = pesquisar
análise – e = analis + ar = analisar
aviso – o = avis + ar = avisar
catálise – e = catalis + ar = catalisar.
É por esse motivo que há verbos terminados em ‘IZAR’ e outros em ‘ISAR’. Esclareça-se também que, se a palavra terminar em consoante, toda ela é o radical e aí o verbo derivado será com ‘IZAR’:
social + izar = socializar
civil + izar = civilizar.
As palavras 'catequese', 'hipnose', 'síntese', 'batismo' e 'ênfase' têm o S e 'catequizar', 'hipnotizar', 'sintetizar', 'batizar' e 'enfatizar' são com Z. Não seriam exceções à regra?
Não, trata-se de uma troca de sufixos: retira-se o sufixo de origem e substitui-se pelo 'izar'.
Profetizar e poetizar não derivam de profetisa nem de poetisa, mas de poeta e de profeta.
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