sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Você acredita em milagre?

 ALGUMAS REGRAS PRÁTICAS DE ORTOGRAFIA

Sugere-se que ortografia é disciplina para se aprender com os olhos. É preciso ler com atenção a forma como as palavras são escritas e gravar o máximo possível. Senão, para se compor um texto simples, o produtor dele terá de ficar recorrendo constantemente a dicionários ou ao VOLP ─ Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, para saber como se escreve essa ou aquela palavra.

À guisa de comentário apenas, deve-se esclarecer que numa língua não há predomínio de regras e sim de normas. Em português, há apenas dois conjuntos de regras: as de acentuação gráfica e as de ortografia. E para as duas não há uma exceção sequer. De forma que, em nossa língua, não há quase regras nem, muito menos, exceção a regras.  As únicas exceções que temos na língua referem-se a normas. Regra é de uso obrigatório. Norma é sugestão do uso ideal.

Dito isso, vamos ver algumas regras práticas, com ênfase nas de correlação ortográfica, para as quais também não há exceção.

1) Correlação T ─ Ç, ou seja, se numa palavra houver a letra T, na palavra irmã, cognata, isto é, em palavras de mesmo radical, na mesma posição silábica haverá a letra Ç. Um exemplo muito conhecido dessa regra são as palavras 'intenção' e 'conjunção', que derivam de 'intento' e 'conjunto', as palavras 'redação', 'instrução' e 'eleição', que derivam de 'redator', 'instrutor' e 'eleitor', e as palavras 'relação' e 'ação', que derivam de 'relativo' e 'ativo', além das palavras 'preparação', 'combinação', 'obrigação' e 'abreviação', que derivam de 'preparar', 'combinar', 'obrigar' e 'abreviar':


                          T >>>>>>>>>>>>>>>>>>>> Ç


                    exceTo>>>>>>>>>>>>>>>>exceÇão

                    distinTo >>>>>>>>>>>>>>>  distinÇão                    

                    extinTo >>>>>>>>>>>>>>>   extinÇão                      

                   detenTo  >>>>>>>>>>>>>>> detenÇão                

                    proteTor >>>>>>>>>>>>>>> proteÇão


2) Correlação ND ─  S (ou NS), ou seja, se numa palavra houver as letras ND, na palavra irmã, cognata, isto é, em palavras de mesmo radical, na mesma posição silábica, haverá as letras NS:


                          ND >>>>>>>>>>>>>>>>>>  NS


  disteNDer >>>>>>>>>>>>> > disteNSão

                   preteNDer >>>>>>>>>>>>>> preteNSão                              

               compreeNDer >>>>>>>>>>>>compreeNSão                    

                    asceNDer   >>>>>>>>>>>>>  asceNSão

                   esteNDer  >>>>>>>>>>>>>> exteNSão

                   suspeNDer >>>>>>>>>>>> suspeNSão

                   repreeNDer >>>>>>>>>>>> repreeNSão

                  apreeNDer >>>>>>>>>>>> apreeNSão

                  ofeNDer >>>>>>>>>>>> ofeNSa

                  defeNDer >>>>>>>>>>>> defeNSa ou defesa

                 confuNDir >>>>>>>>>>>> confusão

                expaNDir >>>>>>>>>>>> expaNSão

                fuNDir >>>>>>>>>>>> fusão


Antes da regra seguinte e também esclarecendo que toda correlação ortográfica só ocorre com palavras cognatas, ou seja, palavras nascidas e formadas com o mesmo radical, destaco aqui uma pergunta pertinente de um aluno: “Mas, professor, a palavra ‘ateNDer’ também tem ND e  ‘atenÇão’ é com Ç. Não seria uma exceção à regra?”.   Não ─ respondi ─, não é uma exceção. A palavra ‘atenção’ é derivada de ATER, e não de ATENDER. O ato de atender é ATENDIMENTO.

Usa-se a mesma regra para as correlações PEL e PULS, RT e RS, RG e RS, CORR e CURS: imPELir > imPULSão / rePELir > rePULSão / exPELir > exPULSão / comPELir > comPULSório; veRTer > veRSão; inveRTer > inveRSão; reveRTer > reveRSão; conveRTer > conveRSão; perveRTer > perveRSão; subveRTer > subveRSão; diveRTir > diveRSão; aspeRGir > aspeRSão; imeRGir > imeRSão; emeRGir > emeRSão; submeRGir > submeRSão; CORRer > CURSo; conCORRer > conCURSo; disCORRer > disCURSo; reCORRer > reCURSo; perCORRer > perCURSo; transCORRer > transCURSo


3) Correlação TER ─  TENÇÃO, ou seja, se uma palavra for derivada de outra terminada em TER, ela se desenvolverá com TENÇÃO, que indica ação de:

       TER >>>>>>>>>>>>>>>>> TENÇÃO


     deTER >>>>>>>>>>>>>>>> deTENÇÃO                      

                          aTER >>>>>>>>>>>>>>>>  aTENÇÃO              

                     manTER  >>>>>>>>>>>>> manuTENÇÃO                  

                     conTER   >>>>>>>>>>>>>    conTENÇÃO                      

                       reTER  >>>>>>>>>>>>>>>    reTENÇÃO

                      obTER >>>>>>>>>>>> obTENÇÃO

                      absTER >>>>>>>>>>>> absTENÇÃO

Mesma regra para os verbos terminados em TORCER: conTORCER > conTORÇÃO; disTORCER > disTORÇÃO


4) Correlação PRIM  ─  PRESS, ou seja, se uma das cognatas tiver PRIM, a outra, na mesma posição, terá PRESS:


                  VVV PRIM >>>>>>>>>>>>>>>> PRESS


                      imPRIMir >>>>>>>>>>>>> imPRESSão, impreSSora    

                     dePRIMir  >>>>>>>>>>>>>dePRESSão  

                     rePRIMir >>>>>>>>>>>>> rePRESSão  

                   comPRIMir >>>>>>>>>>>>comPRESSão

                   exPRIMir >>>>>>>>>>>>exPRESSão

                   oPRIMir >>>>>>>>>>>>oPRESSão

                   suPRIMir >>>>>>>>>>>>suPRESSão


5)  Correlação MET ─  SS, ou seja, se uma das cognatas tiver MET, a outra, na mesma posição, terá SS:



                      MET >>>>>>>>>>>>>>>>>>> SS


                 proMETer >>>>>>>>>>>>>> promeSSa, promiSSória

               introMETer >>>>>>>>>>>>>  intromiSSão

           comproMETer >>>>>>>>>>>>compromiSSo    

                  reMETer >>>>>>>>>>>>>>>>remeSSa, remeSSivo          

           subMETer >>>>>>>>>>>>submiSSão


6) Correlação GRED  ─  GRESS, ou seja, se uma das cognatas tiver GRED, a outra, na mesma posição, terá GRESS:


                           GRED >>>>>>>>>>>>>>>  GRESS

         

                          aGREDir >>>>>>>>>>>>>> aGRESSão                                                    

                          reGREDir >>>>>>>>>>>>>  reGRESSão, reGRESSo      

                      transGREDir >>>>>>>>>>>>transGRESSão

              proGREDir >>>>>>>>>>>>>proGRESSo, proGRESSão


7) Correlação  CED ─ CESS, ou seja, se uma das cognatas tiver CED, a outra, na mesma posição, terá CESS:


                          CED >>>>>>>>>>>>>>>>>>>  CESS


    conCEDer  >>>>>>>>>>>>>>>  conCESSão, conCESSionária

                      proCEDer  >>>>>>>>>>>>>>>> proCESSO                            

                     interCEDer  >>>>>>>>>>>>>>   interCESSão

                           CEDer >>>>>>>>>>>>>>>>>>> CESSão

                     aCEDer >>>>>>>>>>>> aceSSO

                    retroCEDer >>>>>>>>>>>> retroCESSO

                   suCEDer >>>>>>>>>>>> suCESSão

                  anteCEDer >>>>>>>>>>>> anteCESSor

                 exCEDer >>>>>>>>>>>> exCESSO


Acho que com essas regrinhas de correlação já é possível ter uma visão de como as palavras vão se compondo na língua, desde a sua origem.  Ainda há outras correlações interessantes, como  C > Z, ou o contrário, como nas palavras ‘acido’ > ‘azedo’;  ‘lícito’ > ‘lazer’; ‘feliz’  >‘felicidade’; ‘veloz’  > ‘velocidade’. Há também  C > G, ou o contrário, no uso dos superlativos: ‘macérrimo’(hoje também já se aceita a forma ‘magérrimo’) < magro; ‘sacratíssimo’ < ‘sagrado’, ‘sacro’, etc. Fiquemos com essas.


VERBOS EM ‘IZAR’ E ‘ISAR’

  No entanto, e apenas como fecho deste artigo, falemos mais uma regrinha que julgo importante: é a dos verbos terminados em ‘IZAR’ e ‘ISAR’. Como facilmente se percebe, essas duas terminações convivem harmoniosamente na língua e vamos ver quando é uma, quando é outra.

São sempre verbos derivados, pois o sufixo ‘IZAR’ é formador de verbos em nossa língua. É preciso apenas verificar se o radical da palavra primitiva termina ou não em S. Se terminar em S, o sufixo ‘IZAR’ será reduzido ao sufixo ‘AR’. Se não terminar em S, o verbo será formado com a totalidade do sufixo ‘IZAR’. Pode-se conceituar radical como o elemento que traz a parte significativa da palavra e a partir do qual podemos formar novas palavras. Basicamente, se a palavra termina em vogal átona, basta subtrair essa vogal e já temos o radical. Vejamos alguns verbos formados a partir da subtração da vogal átona final da palavra primitiva:


Suave – e = suav + izar – ou seja, como o radical não terminou em S, forma-se o verbo com o sufixo ‘IZAR’ na sua íntegra. O mesmo ocorre com:


humano – o = human + izar = humanizar

                          ameno – o = amen + izar = amenizar


Todavia, se o radical terminar em S, basta acrescentar ‘AR’, pois, se acrescentássemos ‘IZAR’, o som ficaria insuportável:

pesquisa – a = pesquis + ar = pesquisar

                          análise – e = analis + ar = analisar

                             aviso – o = avis + ar = avisar

                          catálise – e = catalis + ar = catalisar.


É por esse motivo que há verbos terminados em ‘IZAR’ e outros em ‘ISAR’. Esclareça-se também que, se a palavra terminar em consoante, toda ela é o radical e aí o verbo derivado será com ‘IZAR’:


                               social + izar = socializar

                                  civil + izar = civilizar.

As palavras 'catequese', 'hipnose', 'síntese', 'batismo' e 'ênfase' têm o S e 'catequizar', 'hipnotizar', 'sintetizar', 'batizar' e 'enfatizar' são com Z. Não seriam exceções à regra?

Não, trata-se de uma troca de sufixos: retira-se o sufixo de origem e substitui-se pelo 'izar'.

Profetizar e poetizar não derivam de profetisa nem de poetisa, mas de poeta e de profeta.

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